Sou pentecostal, mas não oro em línguas, e agora! O Dom de Línguas é de fato, a evidência do Batismo no Espírito Santo?

Artigo publicado em:  Ciências das Religiões: uma análise transdisciplinar - ISBN 978-65-5360-118-5 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.org - Vol. 4 - Ano 2022

RESUMO

Este artigo tem por objetivo analisar à luz dos textos bíblicos e referências da literatura especializada

a doutrina pentecostal do falar em línguas como evidência imediata do batísmo no

Espírito Santo. Essa é sem dúvidas uma das doutrinas mais controversas entre os cristãos,

principalmente entre os pentecostais, pois muitos se sentem menores ou menos espirituais

por não terem recebido este dom, mesmo que tenham sido agraciados por Deus com outros

dons espirituais. No próprio meio pentecostal, encontramos renomados teólogos que se posicionam

contra a mesma. Para tanto fizemos uma aprimorada pesquisa bibliográfica buscando

os textos que apresentam o falar em línguas imediatamente ao batísmo no Espírito, assim

como aqueles que falam do batísmo sem, no entanto, citar o falar em línguas. Recorremos

também à diversos autores que têm publicações abordando essa temática, nosso intuito é

lançar luz sobre o assunto oferecendo ao leitor conteúdo suficiente para que o mesmo faça

seu próprio juízo de valor.

Palavras-chave: Dons, Línguas, Batísmo, Espírito Santo, Doutrina.

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem por objetivo lançar luz sobre a polêmica questão, constante da declaração

de fé das Igrejas Assembleias de Deus no Brasil, que destaca o Dom de línguas

como a evidência inicial do Batismo no Espírito Santo, conforme declaração constante no

Blog da Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB, 2016), esta afirmação

é tão extremada que no Ministério de Madureira se tornou exigência primária para que

o candidato ao ministério diaconal seja consagrado. Existem inúmeros cristãos que mesmo

crendo na contemporaneidade desse dom, discorda de que ele seja o sinal de confirmação

do batismo no Espírito Santo, pois sempre existiram irmãos (ã), que experimentaram vários

dons do Espírito, mas nunca falaram em outras línguas. Muitos cristãos pentecostais se

sentem menores ou à margem do grupo a que pertencem pelo simples fato de não falarem

em outras línguas. Esses crentes não se sentem totalmente abençoados ou enchidos do

Espírito Santo, pois, ouvem de seus líderes e irmãos e leem nas declarações de fé de suas

denominações, que o falar em outras línguas (ou em línguas estranhas), é a evidência do

batísmo no Espírito.

O artigo não abordará a questão da contemporaneidade do Dom de línguas, mas focará

exclusivamente na questão de ser ele ou não a evidência do enchimento do Espírito

Santo ou Batismo no Espírito Santo. Para tanto vamos lançar mão da pesquisa bibliográfica,

recorrendo aos textos bíblicos que faz referência ao assunto e também consultando a

literatura especializada. No intuito de precursor que esta pesquisa seja totalmente isenta e

baseie a sua conclusão tão somente no referencial teórico, buscaremos autores favoráveis

e contrários a essa afirmação para contrapor seus argumentos à luz dos textos bíblicos que

é a fonte primária e soberana sobre a questão.

Não discutiremos nesse trabalho a questão do batismo no Espírito Santo, mas introduziremos

o assunto apenas como pano de fundo para a discussão central dessa pesquisa.

DESENVOLVIMENTO

A promessa da vinda do Espírito Santo é descrita em várias passagens do Antigo

Testamento, Joel 2. 28-29 fala que o Espírito será derramado sobre toda a carne, deixando

claro inclusive que esse fenômeno não será apenas para os judeus; outras profecias como:

Isaías 44. 3, Ezequiel 39. 29 declaram que o Espírito Santo viria como consolo para o povo

de Deus. Os judeus já aguardavam o derramamento do Espírito juntamente com a vinda do

Messias prometido a Israel.

Já nos tempos do Novo Testamento o precursor do Messias, João Batista declarava

àqueles que o procuravam para serem batizados para o arrependimento, afirmando que ele

batizava com água, mas que viria um após ele que batizaria com o Espírito e com fogo, esta

declaração está registrada no Evangelho de Jesus Cristo escrito por Mateus no capítulo três

versos onze e doze.

O Senhor Jesus o Cristo, disse aos seus discípulos que quando voltasse ao Pai, os

enviaria o outro Consolador.

E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, afim de que esteja para

sempre convosco, O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,

porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco

e estará em vós. (BÍBLIA DE ESTUDO. (SBB). João 14.16-17, 2010,

p. 1417-1418).

Após a ressurreição, Jesus advertiu os discípulos para ficarem em Jerusalém até que

recebessem do alto a promessa do Pai (Atos 1.4-5). No dia de Pentecostes, Deus cumpriu

a sua promessa e derramou o Espírito Santo sobre os discípulos que estavam reunidos

em Jerusalém.

Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio dos céus um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entra eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. (BÍBLIA DE ESTUDO. (SBB). Atos 2. 1-4, 2010, p. 1437).

É a partir desse texto que começa a nossa pesquisa; será que o fato do batismo no

Espírito Santo, em sua primeira manifestação, ter concedido o dom de línguas aos discípulos,

transformou esse evento em uma regra para os demais cristãos? Ou Deus na sua suprema

soberania distribui os dons de acordo com a necessidade do reino (no plano terreno) e respeitando

as características individuais de cada um dos seus filhos?

Essas são as perguntas que essa pesquisa se dispõem a tentar responder ou pelo

menos lançar luz suficiente sobre o tema para que o leitor tenha condições de chegar à sua

própria conclusão sem maiores dificuldades.

Aqueles que defendem que o falar em outras línguas é a evidência ou a confirmação

do batismo no Espírito Santo, se apegam aos textos de Atos 2.4 “Todos ficaram cheios do

Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que

falassem.” (BÍBLIA DE ESTUDO. (SBB). Atos 2.4, 2010, p. 1437). Esse texto narra o primeiro

derramamento do Espírito, outra passagem que reivindica tal afirmação está registrada em

Atos 10. 45-46 fato que se deu na cidade de Cesaréia, na casa do centurião Cornélios onde

o Apóstolo Pedro e os que o acompanhavam puderam presenciar o batismo com o Espírito

Santo, seguindo do falar em línguas.

E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, adimiraram-se,

porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo; pois

os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então perguntou Pedro:

Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados

estes que, assim como nós receberam o Espírito Santo? (BÍBLIA DE ESTUDO.

(SBB). Atos 10. 45-46, 2010, p. 1455).

Já Atos 19.6, fala de quando Paulo ora pelos novos convertidos em Éfeso e estes

recebem o Espírito Santo e recebem também o dom de línguas imediatamente; “E, impondo-

lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam”.

(BÍBLIA DO CULTO. (IBB). Atos 19.6, 2016, p.192).

A Bíblia nos apresenta essas três passagens em que se pode ligar o dom de línguas

ao batísmo no Espírito Santo, tendo a Bíblia 66 livros, 1.189 capítulos, 31. 104 versículos

e cerca de 706 mil palavras a depender da versão, teríamos subsídio ou autoridade para

fundamentarmos uma doutrina em apenas três versículos? Vamos conhecer os argumentos

de alguns autores que defendem esse ponto de vista.

Na defesa da doutrina do falar em línguas como evidência do batísmo no Espírito Santo

veja o que diz PALMA.

Concluindo, a doutrina pentecostal da “evidência física inicial” é embasada por

uma investigação das Escrituras. A terminologia, embora é claro que não seja

divinamente inspirada, é uma tentativa de encapsular o pensamento de que

no momento do batismo no Espírito Santo, o crente fala em línguas. Ela traz

a idéia de que falar em línguas é um acompanhamento imediato e empírico

do batismo no Espírito. (PALMA, 2011, p. 81).

Nota-se que o autor fala em investigação embasada nas Escrituras subentende-se,

portanto que, para ele, além dos três versículos que descrevem claramente que o batismo

no Espírito Santo foi imediatamente acompanhado do falar em línguas, existam declarações

implícitas nas escrituras a esse respeito, e o argumento do autor para defender seu ponto

de vista está no parágrafo anterior, onde ele cita 1 Corintios 12.30, onde segundo ele, Paulo

faz uma pergunta “todos oram em línguas?” para dar a entender que num determinado culto

nem todos são chamados por Deus para falarem em outras línguas mesmo possuindo o dom.

A doutrina do falar em línguas como evidência do batismo no Espírito, está implícita

na declaração do doutor Lucas, conforme Horton (1993, p. 89) “Em seguida, para enfatizar

que esses discípulos tinham recebido a plena experiência do batismo com o Espírito Santo,

Lucas declara que falavam em línguas e profetizavam.” No decorrer do livro acima citado

o autor faz mais uma defesa interessante sobre seu ponto de vista a respeito da questão,

segundo ele não é possível dissociar o falar em línguas do batismo no Espírito Santo com

base no livro de Atos dos Apóstolos.

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No dia de pentecostes o recebimento do dom do Espírito foi marcado pela

evidência fisica (ou exterior, posto que não era totalmente física), conforme

o Espírito concedia que falassem. Baseado no fato em que as línguas são a

evidência oferecida, e especialmente no motivo em que as línguas foram a

evidência convincente na casa de Cornélio (“Porque os ouviam falar línguas”,

Atos 10.46), há um argumento a favor da consideração das línguas como

evidência física (ou exterior) do batismo com o Espírito Santo.

Conforme muitos reconhecem, é difícil comprovar, pelo livro de Atos, que

o falar em outras línguas não é evidência do atísmo com o Espírito Santo.

(HORTON, 1993, p. 144/145).

Nesse trecho acima o autor declara que é difícil argumentar contra o falar em línguas

como evidência imediata do batismo no Espírito Santo, através do livro de Atos. A pergunta é:

podemos defender uma doutrina baseado apenas em uns poucos versículos, ou mesmo em

um único livro da Bíblia? Ou ainda, estaria somente no livro de Atos os argumentos daqueles

que mesmo aceitando a contemporaneidade do dom de línguas não o aceita como única e

indispensável evidência do batsimo no Espírito Santo? Vamos verificar o que aqueles que

se opõem a essa doutrina tem a dizer.

Na contramão de Horton e outros defensores dessa doutrina, está um respeitado pentecostal,

o Dr. Keener, autor de 20 livros e que fez mestrado no Seminário Teológico das

Assembleias de Deus, em Springfield, Missouri, ele argumenta o seguinte.

É possível orar em línguas e, ao mesmo tempo, evitar controvérsias. Nos

circulos dos quais participo, a maioria dos cristãos, inclusive aqueles de nós

que oram em línguas, considera o dom de línguas simplesmente mais um dom

entre muitos outros e um recurso útil para a oração. (KEENER, 2018, p. 194).

Portanto na opinião do autor, não há sentido em se dá ao dom de línguas uma importância

maior do que as dos demais dons do Espírito, e devemos nos ater ao fato de que o Dr.

Keener, é pentecostal e recebeu o dom de língua, exercendo-o porém sem menosprezar ou

mesmo diminuir os demais dons e àqueles que os possui em detrimento do dom de línguas.

Parece ser exatamente essa a visão do Apóstolo Paulo quando escreveu a sua primeira

carta aos cristãos de Corintos, para exorta-lhes ao que parece, por causa do mau uso dos

dons, já que a exortação é para que aja unidade na diversidade.

Porventura são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos mestres? Ou,

operadores de milagres?

Tem todos dons de curar? Falam todos em outras línguas? Interpretam-nas

todos? Entretanto, procurai com zelo os melhores dons.

E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente. (BÍBLIA

DE ESTUDO. (SBB) 1 Corintios 12. 29-31, 2010, p. 1547/48).

Com base no texto acima, não encontramos argumentos para classificar um ou outro

dom como superior ou indispensável. A impressão é que o apóstolo Paulo está dando um

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puxão de orelhas naqueles crentes de Corintos que achava o seu dom superior aos dos

outros e com isso criava cismas dentro da igreja. Aliás essa é uma preocupação legítima em

nossos dias, não tornar o dom de línguas, em um dom separatista ou elitista; para que aqueles

que o receberam não caiam na tentação de menosprezar os que receberam outros dons.

Outro autor que parece discordar dessa eleição do dom de línguas como sendo o mais

importante, ou a evidência de que o cristão é cheio do Espírito é PARKER.

As pessoas batizadas no Espírito Santo, assim é declarado, em geral recebem

vários dons, e nenhum cristão fica inteiramente sem nenhum dom. Portanto, o

ministério de todos os membros, conseguido pelo fato de se discernir e direcionar

os dons de cada cristão, deve tornar-se prática padrão de todo o corpo

de Cristo na terra, e os padrões de comportamento congregacionais precisam

ser suficientemente descentralizados, flexíveis, calmos, a fim de permitir, e

não inibir, esse ministério. Todos os dons são para a edificação do corpo e

precisam ser regulados no exercício para a incrementação desse propósito, de

acordo com o “modelo do corpo” apresentado por Paulo, de diversas funções

expressando interesse mútuo. (PACKER, 1991, p. 173).

Essa posição parece ir de encontro com a visão do Apóstolo Paulo, quando escreveu

sua primeira carta aos irmãos de Corinto, pois ele expõe a diversidade de dons e a autonomia

do Espírito Santo para distribuí-los como quiser. Está também implícito no texto que essa

distribuição de dons acontece de acordo com a necessidade do corpo na igreja local e não

para eleger uma classe superior de cristãos.

Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra de sabedoria; e a outro,

segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo

Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, o dom de Curar; a outro, operações

de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espírito; a um,

variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e

um mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz,

a cada um, individualmente. Porque, assim como o corpo é um e tem muitos

membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim

também com respeito a Cristo. (BÍBLIA DE ESTUDO. (SBB) 1 Corintios 12.

8-11, 2010, p. 1546).

Segundo um calvinista que sempre defendeu o batísmo no Espírito Santo como uma

experiência pós-conversão, mas que não endossa o falar em línguas como evidência desse

batismo, e sim como o enchimento do cristão que lhe permite proclamar o Evangelho com

ousadia, o Dr. Lloyd-Jones 1/1 (1996, citado por SEVERA, 2019, p. 251), diz: “O batísmo

com o Espírito Santo é uma experiência na qual o Espírito concede ao crente plena certeza

da fé, [...]. Esta experiência resulta em poder e ousadia, que por sua vez, capacita o crente

a testemunhar eficazmente de Cristo”. Esta declaração do Dr. Loyd, mostra claramente que

nem todos aqueles não pentecostais que são contrários a doutrina do falar em línguas como

evidência visível do batismo no Espírito Santo, são obrigatoriamente cessacionista.

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No que depender destas palavras do Apóstolo Paulo aos crentes de Corintos, os defesores

do dom de línguas como a evidência do batísmo no Espírito Santo, não encontrarão

apoio, veja o que ele diz:

O que fala em língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza

edifica a igreja.

E eu quero que todos vós faléis línguas estranhas, mas muito mais que profetizeis,

porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas estranhas,

a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação. (BÍBLIA

DO CULTO. (IBB), 1 Corintios 14. 4-5, 2016, p.241).

Notamos que em nenhum momento o apóstolo se opõe ao falar em línguas, mas deixa

claro que o dom a ser perseguido é o dom de profecia, pois segundo o apóstolo esse é o dom

que edifica o corpo. O apóstolo faz essa distinção do dom de profecia, porque ele consiste

na exposição da vontade de Deus, através da sua Palavra.

Até mesmo os primeiros carismáticos assembleianos tiveram dificuldade em aceitar a

doutrina do falar em línguas como evidência do batísmo no Espírito Santo, de acordo com

o BLOG CONEXÃO ECLÉSIA (2019).

F.F. Bosworth (1877 – 1958), foi um dos mais conhecidos líderes pentecostais

a rejeitar a doutrina da evidência física inicial. Tendo participado da fundação

das Assembleias de Deus nos Estado Unidos em 1914, Dosworth começou

a contestar a distinção entre as línguas de Atos e as línguas de 1 Corintios,

afirmando que ambos os livros tratam do dom de línguas, e que estas não

seriam a única evidência do batismo com o Espírito.

A citação acima mostra que de fato não há consenso sobre essa doutrina nem mesmo

entre os pentecostais, tanto que o Dr. Keener diz:

Alguns escritores carismáticos chamam a atenção para o fato de que o posicionamento

pentecostal tradicional não é inteiramente monolítico; para dizer

a verdade, alguns pentecostais clássicos rejeitam esse posicionamento.

Agne Ozman (a primeira pessoa a falar em línguas no início do avivamento

pentecostal do século 20), F.F. Bosworth e outros expoentes entre os primeiros

pentecostais questionavam se o dom de línguas sempre acompanhava o

batismo no Espírito Santo. (KEENER, 2018, p. 203).

As duas citações acima fazem referência aos primórdios do pentecostalismo, sendo

assim o que mudou desde então; certamente não foram os textos sagrados, muito menos

o Espírito Santo, pois ele é Deus, e Deus é imutável!

Outro texto interessante e muito pertinente ao tema é citado por Vinson Synan quando

ele aborda a renovação Batista de 1958:

Em 1958, John Osteen era um típico pastor batista do Sul que enfrentava um

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sério problema na família. Sua filha, que nascera com paralisia cerebral, fora

desenganada pelos médicos. (...), começou a estudar as promessas de cura

divina na Bíblia. Tendo o interesse despertado pelos milagres registrados no

Novo Testamento, Osteen orou pela filha e, para seu espanto e também alegria,

a menina foi imediatamente curada.

Logo depois desse fato, Osteen foi procurar os pentecostais da região de

Houston. J. R. Godwin, pastor da primeira Assembleia de Deus de Houston,

dispô-se a ajudá-lo e explicou-lhe o que era o batismo no Espírito Santo.

Em pouco tempo, Osteen teve uma poderosa experiência pentecostal “com

uma torrente de línguas”. (SYNAN, 2009, P. 255).

Essa citação de um fato histórico nos remete a um dilema controverso se partirmos da

premissa de que o falar em línguas é a evidência do batismo no Espírito Santo. Se Osteen

só falou em línguas posteriormente a cura da sua filha, quem foi o agente da cura? Não

seria o Espírito Santo? Se sim, Osteen já seria batizado no Espírito, ou então é preciso

admitir que é preciso ser mais cheio do Espírito Santo, para falar em línguas do que para

receber uma cura.

Citado no Blog pastorflavioconstantino.blogspot.com (2012), o pastor da Igreja Betesda

Elienai Cabral Junior, filho e neto de pastores assembleianos, no seu texto “Meu pentecostalismo

revisitado” faz a seguinte afirmação.

É preciso que se diga que por mais que funcione, a doutrina pentecostal da evidência

inicial do Batismo com o Espírito Santo é oca de conteúdo bíblico. Nos

chamados quatro pentecostes de Atos (2.1-13; 8.4-25; 9.24-48; 19.1-6), nem

todos registam a glossolalia e, exceto o do Dia de Pentecostes em Jerusalém,

o sinal das línguas estranhas não é a única evidência. Lucas lista também as

profecias, adoração e alegria. Entre os samaritanos nada diz. Apenas afirma

que receberam o Espírito (At 8.17). As línguas são um sinal frequente, mas

não um sinal imprescindível.

No referido texto além dessa declaração o pastor Elienai aborda questões importantes

sobre ensino pentecostal referente a essa doutrina.

Segundo Grudem (1999, p. 865) “Provavelmente, não se pode traçar nenhuma linha

definida nessa matéria, mas Paulo lembra-nos de que ninguém tem todos os dons e não há

nenhum dom que seja comum a todos”. Grudem faz essa afirmação baseado em 1Co 12.

29-30, e cita que no texto grego a partícula mē (μή) antes de cada interrogação feita pelo

apóstolo pressupõe-se um não.

O apóstolo Paulo faz mais uma exortação aos corintios, no sentido de dar mais ênfase

ao dom de profecia em relação ao falar em línguas.

E, se alguém falar em língua estranha, faça-se isso por dois ou, quando muito,

três e por sua vez, e haja intérprete.

Mas se não houver intérprete, esteja calado na igreja e fale consigo mesmo

e com Deus.

E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.

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Mas, se o outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o

primeiro.

Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros, para que todos aprendam

e todos sejam consolados. (BÍBLIA DO CULTO. (IBB), 1 Corintios 14.

27-31, 2016, p.242).

Podemos observar que o apóstolo dá instruções bem distintas para cada dom abordado,

no caso das línguas, ele ordena que falem no máximo três e se tiver intérprete, mas quando

passa a instruir sobre o dom de profetizar ele instrui e fecha o assunto dizendo que todos

que tem o dom poderão profetizar um após o outro. Seria Paulo controverso ao ponto de

disciplinar o uso do dom que seria a chancela do batismo com o Espírito Santo? Não é o que

parece, o Apóstolo parasse cuidar apenas de aparar arestas e mostrar àqueles irmãos que

ninguém se tornava superior ao outro irmão por possuir um ou outro dom, pois é o mesmo

Espírito que os distribui liberalmente para o crescimento do Corpo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Buscando através da pesquisa bibliográfica apresentar e discutir a validade bíblica

da doutrina pentecostal do ‘dom de línguas’ como evidência do batísmo no Espírito Santo,

apresentamos os textos bíblicos que mencionam o referido dom, assim como vários autores

que apresentam seus pontos de vista favorável e contrário a essa doutrina.

Diante do exposto podemos concluir que o falar em línguas como evidência do batismo

no Espírito Santo, é uma doutrina que não encontra fundamentação robusta nas sagradas

Escrituras, quando partimos da premissa de que a Bíblia interpreta a própria Bíblia, pois

apenas três versículos mencionam o falar em línguas imediatamente ao batísmo no Espírito,

além do que não encontramos em nenhum desses três versículos uma afirmação ainda que

implícita dessa condicional. Portanto, a doutrina do “falar em línguas” como evidência do

batismo no Espírito Santo, parece não ter base bíblica suficiente para passar pelo crivo de

uma boa hermenêutica, nem pelo crivo da exegese bíblica.

Portanto, aqueles irmãos em Cristo, que são pentecostais e acreditam na continuidade

dos dons, os tem experimentado, exceto o dom de línguas, podem ficar em paz! Não há nada

de errado com a fé deles, apenas aprouve a Deus em sua suprema soberania, agraciá-los

com outros dons que se fazem necessário para o bom andamento da obra local.

Como pastor da Assembleia de Deus e crente no continuísmo dos dons, já experimentei

alguns, entre eles o ‘dom de línguas’, nem por isso me sinto mais abençoado do que aqueles

muitos irmãos que foram agraciados com outros dons e que por vezes se mostraram mais

cheios do Espírito Santo.

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Essa pesquisa não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas tem por objetivo ajudar

o leitor a compara os argumentos favoráveis e contrários a essa doutrina e à luz dos textos

bíblicos aqui expostos, os quais são de fato e por princípio a autoridade suprema sobre

qualquer tema teológico, chegar às suas próprias conclusões assim como auxiliá-lo em

futuras pesquisas sobre o tema.

REFERÊNCIAS

1. BLOG CONEXÃO ECLÉSIA. 2019. Disponível em: http://conexaoeclesia.com.

br/2019/02/11/falar-em-linguas-batismo-no-espirito/. Acessado em: 25 de março de

2019.

2. BLOG DA CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS DO BRASIL (CGADB).

2016, Pg 91. Disponível em: https://assembleia.org.br/wp-content/uploads/2017/07/

declaracao-de-fe-das-assembleias-de-deus.pdf. Acessado em: 21 de março de 2020.

3. BLOG pastorflavioconstantino.blogspot.com/2012/01/meu-pntecostalismo-revisitado-

-por.html-. acessado em 27 de maio de 2020.

4. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Vida Nova, 1999.

5. HORTON, Stanley M. O que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. Rio de Janeiro:

CPAD, 1993.

6. INSTITUTO Bílico Brasil (IBB). Bíblia do Culto, Almeida Revista e Corrigida. Santo

André, 2016.

7. KEENER, Craing S. O Espírito na Igreja, o que a Bíblia ensina sobre os dons. São

Paulo: Editora Vida Nova, 2018.

8. PACKER, J. I. Na Dinâmica do Espírito – Uma avaliação das práticas e doutrinas.

São Paulo: Vida Nova, 1991.

9. PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. Rio de Janeiro:

CPAD, 2011.

10. SEVERA, Zacarias de Aguiar. Manual de Teologia Sistemática. Curitiba: AD Santos,

2019.

11. SOCIEDADE, Bíblica do Brasil (SBB). Bíblia de Estudo MacArthur. Almeida Revista

e Atualizada. Barueri, 2010.

12. SYNAN, Vinson. O Século do Espírito Santo, 100 anos do avivamento pentecostal

e carismático. São Paulo: Editora Vida, 2009.


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